A TORRE


Como um imenso tecido amarelo. Calmo e estático.

Eu a olhava, e olhá-la significava praticar o exercício de descobri-la, perfurar a densidade de seu estar sem pressa.

Estava em pé como uma mesa pensa.

Estava.

E observá-la num olhar que fosse do rés ao seu teto era lançar-se em um longo descobrir de formas.

Parecia equilibrar-se sobre dois pares de caules mal formados, caules de oliveiras não crescidas. E, sobre o par dianteiro um pouco mais alto que o par traseiro, equilibrava-se uma torre enorme, a torre de Rapunzel onde, por mais que se olhe cá de baixo, não é possível ver Rapunzel, mas apenas as pontas de suas tranças jogadas.

Um imenso tecido amarelo. 

Mas agora percebo nele inteiro estilhaços marrons cravejados. Um imenso tecido amarelo envolvendo todas as suas formas e possibilidades, desde o esguio dançarino que tange moscas até o elmo com antenas sobre a torre de Rapunzel.

O elmo. Ornado com duas pedras cor de ébano que brilham, que piscam calmas como calmas batem asas de borboletas solenes. Sonolentas. Negras. Cintilantes. Preguiçosas. Duas pedras preguiçosas.

Quando corria, ninguém esperaria vê-la inteira a cada passo, pois trotando parecia prestes a desmanchar-se, a desmoronar como quem recusa as verticalidades. E quem juntaria, como num quebra-cabeças de infinitas peças, os estilhaços marrons? Quem os devolveria aos lugares exatos, na precisão daquela imperfeição que se sustentava de equilíbrios frágeis?

Mas não se desmanchava. Tudo permanecia nela e dela. Era uma fragilidade que sabia cuidar de si. Podia correr como um imenso tecido soprado de vento.

E ela corria.


(Oliveira de Carvalho - 1995, revisado em 07.07.21)


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